o Homem usa apenas 10% do gênero?
Este anexo surgiu após uma noite de sono. Naquela madrugada, sonhei que vivia um dia qualquer do meu ensino médio e, já afirmando minha identidade não-binária, me reconhecia e era reconhecide como tento ser hoje, cerca de 5 anos depois. Mesmo não sendo a primeira vez que algo assim me ocorria, senti, na manhã seguinte, que um turbilhão de ideias me fez ver essa experiência como sendo uma, dentre tantas outras, capaz de mover uma profunda reestruturação da autoimagem de quem transita de gênero. Mais do que isso, notei que tais modificações não se comportam como uma regressão, mas, sim, como uma progressão do passado para o presente, pois mais parecem ser consequências da contração de lembranças virtuais em um único ponto de atualização, que possibilita os dois tempos coexistirem em paz, serem mutuamente percebidos e agirem um sobre o outro. A partir disso, pude reparar que jamais se tratou de um antes ou depois da transição, pois, em geral, essas mudanças provocam um entrelaçamento irreversível dos fatores, em uma espécie de reordenamento da subjetividade que é incompatível com a cisgeneridade referencial, na medida em que nos oferece uma existência que jamais foi esta ou aquela, mas sempre outra, mesmo que virtualmente, mesmo que inconscientemente. No entanto, a emergência de tais percepções, dessas tendências que alteram ativamente as seções da memória, não pode ser explicada por um convencional Inconsciente teatral e triangulado por relações familiares, castrado de uma forma ou de outra. É que esta pesquisa “começou” a partir de um sonho não (somente) pelo potencial representativo do inconsciente. Em verdade, ela somente se evidenciou, tornou-se explícita em um sonho, e isto porque, nele, houve um encontro do passado com o presente, no qual um impeliu o outro à diferença, através de tendências transversais que desfizeram e refizeram as durações que me levaram até aqui, me incitando a novas possibilidades de ser, para tão somente desembocar nas linhas que escrevo agora – não um fantasma, mas um circuito concreto do desejo. Só assim o inconsciente pôde se fazer objeto de pesquisa, e mais do que isso, fazer do sonho seu mecanismo de denúncia, seu “primeiro motor” em uma busca por explicar os outros modos de existência que me vêm aparecendo – modos livres e independentes de estruturas mal analisadas, reabilitados do vício em ontologias binárias, não mais correlatos de um eu castrado, cuja psiquê foi institucionalizada e registrada em Um dos Dois lados possíveis.
Porém, tudo muda se, ao invés da cisgeneridade, nossa explicação partir da transgeneridade, e entendermos, nela, uma produção prévia do desejo, ainda não-binária, que precede a organização dos conjuntos bipartidos. E a primeira consequência dessa virada é que começaremos a considerar a cisgeneridade uma identidade construída a posteriori, ao invés de a priori como normalmente a entendemos – veremos, nela, uma identidade forçosa, que demanda esforços ativos para ser mantida dentro dos seus limites, normalizados e impostos pela sociedade. E isso acontece porque, quando invertemos o jogo cis-trans, paramos de ser exceção para virarmos regra, e concedemos o lugar de estranheza ao cis, em razão de sua necessidade constante em assegurar a sua suposta natureza. É que, ao colocarmos a cisgeneridade como fator estranho ao sistema, como exceção à regra, também descobrimos que pessoas cis cabem muito melhor nesta posição do que nós, pois nada de verdadeiramente natural ou essencial conseguimos achar na bipartição. Já a transgeneridade, como criação de formas afirmativas de gênero, se mostra um ponto de partida muito mais preciso às nossas investigações, justamente porque ela está relacionada às forças fundamentais que nos levam a afirmar quem nós somos, mesmo quando voltamos a nos afirmar dentro da lógica binária, uma associação que só ocorre depois deste primeiro impulso de transição. Por essa razão, devemos ter em mente que a cisgeneridade é somente um modo restrito e normativo de organizar as identidades de um coletivo e de seus respectivos entes individuais, enquanto a transgeneridade é o impulso vital pelo qual podemos escolher ser x, y ou z neste mesmo coletivo.
Ainda assim, para além do Homem e da Mulher, não deixaremos de nos deparar com formações de gênero completamente desatadas da dualidade, construídas através da criação de novas e outras formas de identificação, sejam elas recombinações das duais, negação de ambos os lados, desvio fluído por entre as categorias, ou qualquer outra forma de fugir à natureza a qual fomos designades. É que, ao sairmos da cisgeneridade, não encontraremos mais referente (ou contrarreferente) algum para ser o fundamento de nossa compreensão, justamente porque esta é a função do cis na sociedade: dar uma métrica geral e absoluta à identidade de gênero. Na transgeneridade, pelo contrário, precisaremos proceder com uma argumentação que seja capaz de conciliar toda e qualquer afirmação de gênero, mesmo aquelas que ainda não conhecemos, sem inferir nenhuma atribuição prévia às suas formações. Logo, será unicamente o desvio, o não pertencimento ao conjunto binário, o nosso critério universal de investigação dos elementos deste outro conjunto trans. A partir daqui, a transgeneridade, nos levará a uma “profunda reconstituição do universal” que foi imposto pela cisgeneridade até então, como muito explica o Manifesto Xenofeminista: “O universal deve ser entendido como genérico, o que significa interseccional. A interseccionalidade não é o morcelamento de coletivos sob uma penugem estática de identidades cruzadas, senão uma orientação política que corta através de cada particular, recusando-se à tosca estereotipação dos corpos. Esse não é um universal que possa ser imposto de cima, mas sim construído de baixo – ou, melhor ainda, lateralmente, abrindo novas linhas de trânsito em uma paisagem desigual. Essa não-absoluta e genérica universalidade deve se precaver contra a fácil tendência de conflação com os particulares inflados e não-marcados – como o universalismo eurocêntrico – onde o homem é confundido com aquele que não possui sexo, o branco com aquele que não possui raça, o cis com o real, etc.” (LABORIA CUBONIKS, 0x0F)
Mesmo assim, antes de passarmos à transgeneridade, proponho que, para compreender verdadeiramente o binarismo, primeiro analisemos esta peculiar figura dominante da cisgeneridade: o Homem – e, sim, já te adianto que é ele o grande culpado, mesmo, pessoalmente, não acreditando muito nessa culpa cristã, mas ele acredita, e bastante, porque sabe que foi ele o culpado. Você poderia agora estar perguntando: mas quem é esse Homem com H maiúsculo? qual seu nome? de onde ele veio? quando ele nasceu? O problema é que, caso tentemos retroceder no tempo, procurando estas respostas, nos veríamos cair em uma espiral de dezenas de milhares de anos, que não nos levaria a ponto nenhum de origem – mas, mesmo assim, perceberíamos que o Homem estaria em todes, o tempo todo e por toda parte. Foi aí que notei que esta regressão nada nos oferece senão pistas para uma genealogia do Homem, pois ela somente nos indica que ele sempre esteve aí – e, talvez, seja esse o sentido de universal que ele empenha. É que, aqui, notei que o Homem também não se trata de uma existência cronológica ou material, mas, muito pelo contrário, sua existência é essencialmente vazia, como uma espécie de fantasma intempestivo e abstrato inserido como fato majoritário no sistema. Mais do que uma faixa de tempo ou um coletivo de entes, o Homem é uma espécie de captura universal, que se porta como único referencial absoluto com o intuito de restringir a compreensão do mundo aos seus pressupostos. E isso acontece porque ele faz com que tenhamos de partir, exclusivamente, de pares duais no entendimento do que quer que seja, inclusive da percepção que temos de nós e dos outros seres. Por essa razão, é difícil identificarmos, ainda dentro de sua lógica, uma existência que não esteja pautada nele, o verdadeiro criador do sistema binário. E sua autoria fica bastante clara ao percebermos que, nesta divisão, é sempre ele o beneficiado, o mais forte e inteligente, aquele que é digno de ocupar os cargos mais altos e importantes em qualquer que seja o ofício – afinal, não é nada crível que as mulheres, muito menos pessoas trans, tenham criado um sistema hostil a si mesmas, mesmo que, por vezes, sejam levadas a cooptar com ele. E, na verdade, é bastante fácil cooptar com ele, pois é necessário esforço e atenção para não cairmos no automatismo que nos foi ensinado, ou seja, no pressuposto de que uma pessoa qualquer é sempre, por via de regra, cis, e o normal é existirem apenas dois sexos e dois gêneros correspondentes por natureza, logo, tudo que foge disso é exceção. Pior ainda é quando nos acostumamos a entender uma exceção exclusivamente como a transição de um conjunto de regras para o outro oposto, e nada mais do que isso, pois a regra é tão que deve retornar até mesmo nas exceções, para assombrá-las e evidenciar os seus desvios. Dentro desse jogo, só nos resta a trapaça.
Portanto, neste ensaio, buscaremos construir uma compreensão crítica do Homem dentro das problemáticas de gênero, a fim de que averiguemos as determinações das quais nos desviamos, independentemente do tipo de desvio que é feito. Comecemos, então, dizendo que, longe de ser um indivíduo específico, o Homem é sempre Ninguém: esse é o seu nome próprio. Ele é o termo maior e inalcançável a qual todos os outros fazem referência, é um todo posto à direita, ao lado das partes, que faz com que todas elas se voltem a ele. Mais especificamente, ele é o valor pelo qual inicialmente todos os outros serão relativamente avaliados, um valor dos valores capaz de subordinar qualquer sistema de valoração, uma conjunção geral para qualquer que seja a realização. Em suma, é um conceito associado a tudo que há de dominante, homogêneo e determinante nas relações e formações de gênero, sejam elas quais forem. Atuando sempre como se estivesse por trás de tudo, englobando toda e qualquer coisa, ele é um parasita que adultera a produção do inconsciente de baixo para cima, coordenando cada elemento através daquilo que é ou não-é. Seu trabalho consiste em estriar continuamente cada nível do passado, com linhas de corte cada vez mais precisas, que percorrem até as mais longínquas lembranças a fim de reduzi-las ao seu único modo eficiente e precário de rememorá-las: o binary digit ontológico. Seu produto é uma variável biunívoca e de possibilidades fixas, que não só circunscreve a mutabilidade de um corpo e de seu espírito, como também obstrui os processos coletivos pelos quais novos arranjos podem ser formados para um corpo qualquer por meio de suas lembranças, normalizando tudo e todes, a uma só vez, através do mesmo 1: o Homem.
Para que melhor compreendamos o funcionamento deste Homem, proponho que o imaginemos como um plano C de captura, que se comporta como uma espécie de negativo tendencioso no qual um recorte da realidade tridimensional pode ser condensado em uma representação bidimensional estática. Situado entre dois limites, o da lembrança e o da percepção, este plano pode transladar de uma extremidade à outra, recortando seções específicas da memória para gravar, como em uma fotografia, uma determinada organização, macro ou micro, que influi tanto no modo como o passado é requisitado pelo presente, quanto na forma como o presente é transmitido ao passado, comprometendo, significantemente, o dinamismo da memória e da percepção. Logo, será bastante útil a célebre metáfora visual, esboçada por Henri Bergson em Matéria e Memória (2011), segundo a qual um “cone SAB [representa] a totalidade das lembranças acumuladas em minha memória, a base AB, assentada no passado, permanece imóvel, enquanto o vértice S, que figura a todo momento meu presente, avança sem cessar, e sem cessar também toca o plano móvel P de minha representação atual do universo.” (p.178) Acrescentemos a ela, então, o plano C, paralelo a P, cortando a seção A’B’ do cone. A partir de C, poderemos esboçar as 4 metamorfoses do Homem.
Representação do cone SAB de Bergson, acrescido do plano C, cortando a seção A´B´.
I. O homem (0,1): não seria certo dizer que o homem com h minúsculo veio antes do Homem com H maiúsculo, nem ao menos vice-versa. É a velha história do ovo e da galinha: seria impreciso conferir o ponto de origem somente a um ao invés de admitir uma espécie de surgimento único e duplo. Igualmente seria errôneo admitir que os dois sejam idênticos e que funcionam da mesma maneira. O que podemos dizer é apenas que eles surgiram e agem a uma só vez, sendo o primeiro a medida relativa pela qual o segundo relativizará todo o resto.
De início, digamos que o homem com h minúsculo é uma marca no território, uma dentre tantas outras com as quais se relaciona por contínua conotação, por misturas de valores que não implicam necessariamente uma terra total e previamente demarcada, mas, sim, um solo fértil em constante germinação. Pois, no princípio do Homem, a cadeia que leva ao significante ainda estava sendo construída e não havia, nem ao menos, os tijolos que foram usados para construí-la, mas somente influxos de barro se moldando por toda parte. Ainda assim, a representação não era impossível: o homem esburacava e transbordava a superfície de inscrição, na qual ele é uma centelha dentre muitas outras imagens plurívocas e heterogêneas, cujas referências são dadas pelo 0 que é a própria terra. Porém essas imagens, não são tão longínquas, pois elas não têm um suporte fixo suficiente para serem inscritas e, logo, findam assim que a diferença retorna para cobrar a dívida que a marca pressupõe – uma diferença de valores compreendida entre o efeito da marca no corpo e a reação do corpo marcado. O homem, sozinho, é apenas o resultado de uma soma de n vetores, signos, imagens, órgãos e corpos transversais, com valor “final” igual a 0,1. Portanto, podemos dizer o homem menor somente antecipa o Homem Maior, mas ainda não o reconhece como unidade transcendental e absoluta de medida. É porque, de fato, o homem com h minúsculo é mais parcial do que relativo: ele é mais um resultado repentinamente concatenado por uma extensa cadeia estocástica, passível de ser alterado no instante seguinte, do que uma matriz pela qual os termos são distribuídos e os resultados obtidos. Ele está mais próximo do que Deleuze e Guattari nomearam de número numerante, isto é, um número que “não é um meio para contar nem para medir, mas para deslocar: é em si mesmo aquilo que se desloca no espaço liso.” (2012, p.69) E, justamente por não presumir um sistema de medidas, este homem pode ser um modo pelo qual mais e novos homens podem ser produzidos, esquecidos e lembrados de todas as formas – o que não implica, necessariamente, o uso relativo que o Homem faz dele, nem a dominação subsequente de todo o sistema. Verdadeiramente, para compreendermos bem o homem com h minúsculo, é melhor que o pensemos não através da cisgeneridade, mas, sim, através da transgeneridade, e vejamos, então, ele como uma fonte inesgotável de diferentes modos de ser homem (o que nos faz, momentaneamente, deixar de lado, a terminologia do devir-mulher de Deleuze e Guattari, porque seria menos oportuno pensar o homem (trans) a partir de uma mulher molecular, ao invés da abertura pela qual um homem (trans) ativamente constrói um homem molecular para si, desatado do Homem molar da cisgeneridade). Afinal de contas, para formar um homem, jamais foi necessário o triângulo edipiano, mas, minimamente, algo como “uma máquina desejante olho-mão-voz” (2011, p.251): imagem e extração e grafia e gesto e voz e linguagem – uma fórmula facilmente compreendida tendo em vista como pessoas trans precisam, frequentemente, administrar e se ater aos modos como sua imagem se dá no mundo é extraída por outrem e por sua própria memória e como seu corpo age e é reagido no espaço e como seus pronomes e nomes são enunciados e trocados no discurso.
Se desejássemos, então, esboçar um primeiro plano de captura, o do homem com h minúsculo, traçaríamos apenas uma demarcação em 0,1, sem atribuir um valor limítrofe à direita, pelo qual grandezas podem ser universalmente determinadas. À esquerda, estaria apenas o 0, não como valor de medição, mas como índice indefinido e intransponível pelo qual inúmeras soluções não param de surgir, uma para cada problema apresentado – um zero de duração absoluta que concentra todos os outros zeros, um índice de desterritorialização que se choca com os limites do real. O restante do plano poderia ser preenchido com quaisquer valores que se queira ou deva assumir, mas deixemo-lo vazio para que ressaltemos seu caráter essencialmente liso.
Primeiro plano de captura, o do homem.
II. O Homem (1): nada de tão mal ocorreria se parássemos por aqui, neste homem menor derivado das tendências móveis. No entanto, elevemos, agora, o plano C em alguns níveis até que o Homem despótico dê suas caras. Logo notaremos que o homem com h minúsculo começa a se comportar como uma porção segmentar do plano, que equivale exatamente a décima parte do total, sendo seu numerador não mais um 1 qualquer, mas o exato e mesmo 1 que corresponde ao Homem com H maiúsculo, o termo inteiro pelo qual a série harmônica progride. E este 1 posto acima torna-se, então, o número inteiro que dita a grandeza de todos o resto, o comparativo geral que mede um ponto qualquer como estando mais próximo ou mais distante do grau máximo 1 a partir da porção mínima 0,1. É este Homem o primeiro enlaçamento cosmológico, a primeira forma-Estado, a primeira facilitação universal e totalizante – e mesmo não sendo realmente absoluto, finge ser e assina seu nome como Ninguém com N maiúsculo, porque tem orgulho de sua grande feito: fazer-nos acreditar que ele é mesmo o indefinido, aquele que foi repartido comumente em todes nós, e que o seu oposto é somente um zero à esquerda, um valor simétrico ao Homem, naturalmente mais fraco e que de nada serviria sem ele, pois não possui existência própria.
Para que pudesse reordenar o plano C dessa forma, o Homem precisou tomar o homem com h minúsculo como a unidade fundamental de seu sistema de medidas, a parcela mínima de valor admitida na medição, que corresponde à menor parte pela qual podemos dividir qualquer elemento do conjunto. Mais precisamente, o homem foi tomado como um segmento vertical, que dista exatamente um décimo de unidade do ponto zero, e cuja distância é de nove décimos de unidade da unidade inteira. A partir dele, então, logo que finda o primeiro, o Homem erigiu nove homens idênticos, lado a lado, de modo que o recorte vertical que vai de 0 a 0,1 pudesse ser definido, também, como modelo geral de estriamento do eixo horizontal, que percorre por todo o plano, de 0 a 1. O homem, então, se torna a parte mínima, igual e repetida em todo valor, participante de uma espécie de filiação direta de graus, que é fundamental às duas naturezas habitantes deste espaço de pilares, cujas “verticais paralelas formaram uma dimensão independente, capaz de se transmitir a toda parte, de formalizar todas as demais dimensões, de estriar todo o espaço em todas as direções, e dessa forma torná-lo homogêneo. A distância vertical entre dois pontos fornece o modo de comparação para a distância horizontal entre dois outros pontos. A atração universal será, nesse sentido, a lei de toda lei, na medida em que regula a correspondência biunívoca entre dois corpos.” (DELEUZE, GUATTARI, 2012, p.39)
A partir desse estriamento, uma linha crítica foi descoberta na metade do plano (½) e, quase que instantaneamente, ela foi deturpada pelo Homem, ao transformá-la no palco e ágora do inconsciente, compreendida entre o aquém recalcado (0) e o além recalcante (1), os quais correm um em direção ao outro até colidirem na linha exata que interseciona as duas porções. Assim surgiu a grande invenção do Homem, a facilitação que fundou seu pensamento e deu asas à sua dialética, a linha de Transição, a linha do Terceiro excluído, a linha de fuga traçada exatamente na altura de seu terceiro olho, em cima do buraco negro que gravita tudo a si para fundar a nova aliança, a do par conjugal antropomórfico, o núcleo básico de compensação da descontinuidade que o próprio Homem instituiu em cada um dos dois segmentos. Isso acontece porque “é preciso haver algo em comum aos dois sexos, mas para que esse algo falte tanto a um quanto ao outro, para distribuir a falta pelas duas séries não simétricas e fundar o uso exclusivo das disjunções: você é menina ou menino!” (2011, p.84) Nos atentemos ao fato de que estas séries são “não simétricas”, justamente por terem sido formadas de modos distintos e, consequentemente, possuírem funcionamentos incompatíveis entre si: à esquerda, mesmo que uma Mulher molar apareça, com sua devida importância histórica, de modo algum ela reproduzirá a rigidez da forma-Homem em uma mesma escala. Acontece que tudo que se referencia pelo 0 será obrigatoriamente multilinear, pois não possuirá um grau máximo e referencial que lhe imponha um limite exato, mas somente limites plurais e dados por si mesmos, por outros termos e/ou pelos movimentos nos quais o ente está empenhado. É neste sentido que, quanto mais nos referirmos à esquerda, mais veremos surgir múltiplos resultados para um mesmo problema, sendo difícil resumir todos na figura molar da Mulher, muitas vezes usurpada e utilizada em favor do Homem. E isso ocorre porque, quanto mais corremos para a direita, mais começamos a ver tudo à nossa esquerda como menor – e quanto mais avançamos, mais tudo se torna oponível à unidade, a tal ponto que acabamos tendo de deslocar toda a verdade para o nosso interior, porque, só lá, poderemos ser essa tal unidade. É por isso que, ao irmos em direção à direita, parece que podemos correr infinitamente, de modo que vejamos esse 1 máximo como sendo, por natureza, deslocável e jamais alcançável. Tudo isto, porém, corresponde apenas ao modelo fundamental de cristalização do Homem, que já foi largamente aprofundado desde sua origem. Com o intuito de monopolizar o movimento e as fronteiras, passando toda mediação ao seu interior totalizante, nos permitindo somente ir até a dízima 0,999..., e nunca até o valor inteiro, o Homem outorgou que somos todes frações, dízimas e valores com zeros à esquerda, pois esse é o único modo pelo qual um ponto qualquer pode transladar até qualquer outro e, ainda assim, ter sua trajetória posteriormente determinada por um par de abscissas e ordenadas, que inferem os dois lados de uma mesma subordinação.
Neste segundo plano, então, demarcaremos não só o 0,1 do homem com h minúsculo, mas também cada estriamento produzido pelo deslocamento desse segmento até o número inteiro 1, o Homem com H maiúsculo, que olha por todes nós. No centro, traçaremos a marca sobressignificante da castração, a linha T, que corta o falo ou o desejo, para induzir, em cada lado, a falta ontológica que a metade tolhida agora lhe faz. Iremos colorir a porção à esquerda de rosa e à direita de azul, para que vejamos com mais clareza as duas formas molares fundamentais deste plano, aquela do par conjugal, epítome do binarismo de gênero, pela qual somos triangulades pelo macho e pela fêmea, pelo papai e pela mamãe, pelo Homem e pela Mulher. Tendo estabelecido essa tábua universal de valores organizados em conjuntos binários, o Homem sobrecodifica os diferentes indivíduos através da captura de seus movimentos de transição (descodificação, negação afirmativa de valores) em uma única intransitividade (recodificação, numerador de sobrescrição). Desse modo, podemos entender como as imagens são capturadas em C, já que agora temos um sistema fechado de medição, pelo qual podemos projetar uma lembrança qualquer no plano e, dela, obter sua maior porção através da média (M) das extremidades da seção (A’B’).
Segundo plano de captura, o do Homem, com a seção A´B´ da memória e seu centro M inscritos no mesmo.
Corte tridimensional exercido por C no cone SAB e extração de um valor binário, por meio da altura da triangulação SA'B’.
Vejamos que a linha T se porta como um grande neutralizador do sistema, ao passo que concilia duas séries opostas através de uma primeira demarcação de gênero, que qualifica o segmento por meio de uma simples comparação objetiva das partes cortadas, que designa uma como maior e a outra como menor – é um jogo bastante básico de médias, proporções e ícones. É a pré-história de gênero: você é Homem-caçador ou Mulher-coletora. E os dois parecem realizar-se a uma só vez, numa megamáquina de gênero, que vincula o núcleo familiar ao grupo coletivo mediante um mesmo pacto binário. É que não apenas desenharam a imagem de um pênis e de uma vagina nas paredes, mas, de fato, construíram toda a caverna na qual estamos aprisionades, para que vejamos somente sombras do Homem e da Mulher, por sua vez, deveras distorcidos. É toda uma meia-verdade que o Homem forjou, por exemplo, ao sequestrar o regime alimentar humano, com o intuito de ser, por direito e natureza, forte e violento. Mas, obviamente, tudo se trata de uma história mal contada, como Leroi-Gourhan melhor explica na primeira parte de O Gesto e a Palavra: “O regime alimentar humano implica duas ordens de operações muito diferentes: a aquisição violenta da carne dos grandes animais e a aquisição mais pacífica de pequenos animais, invertebrados e vegetais. Em todos os grupos primitivos vivos conhecidos, a caça cabe normalmente ao homem, a colheita à mulher. Esta separação pode ser explicada por um contexto religioso ou social, mas seu caráter orgânico é demonstrável pelo fato de que, segundo os povos, a fronteira entre os domínios masculino e feminino é flutuante. [...] A humanização deste imperativo biológico reside nas modalidades sociorreligiosas dele provenientes para cada grupo humano. O fenômeno fundamental é realmente um fenômeno geral, que só é particular ao homem pelo caráter excepcional de sua alimentação: os limites por vezes estritos da especialização, tudo o que ela implica de racionalização tradicional das trocas alimentares entre o homem e a mulher, marcam, pelo contrário, a parte do fenômeno social totalmente humano.” (1987, p.153-54)
Obviamente, não foi o Homem o primeiro castrado, mas fruto de uma linhagem castrada, de uma árvore genealógica que retrocede até o seu primeiro ancestral, o primeiro Homem, a sua origem mitológica e absoluta, responsável por matar seu pai, o último neandertal, e esposar sua mãe, a primeira Mulher, com quem teve um filho psicótico, o homem.
“67. Esquema representando o casal primitivo, célula fundamental do grupo, partilhando complementarmente o conjunto dos conhecimentos étnicos. 68. O grupo nômade da economia primitiva percorre ciclicamente o seu território. Mantem trocas matrimoniais e econômicas com os grupos vizinhos complementares.” Fonte: O Gesto e a Palavra 1, 1987.
“143. Variantes do tema masculino (a) e do tema feminino (b e c) que ilustram bem o caráter abstrato das representações sexuais durante a maior parte do Paleolítico superior.” Fonte: O Gesto e a Palavra 2, 1987
III. O último homem(0,1n): a terceira metamorfose do Homem pode ser melhor compreendida como um desenvolvimento (ou deslocamento) profundo da segunda, pois ela herda o mesmo sistema de medidas da anterior. Comecemos dizendo que, do laço mágico do Homem, foi tirada uma conclusão ainda mais errônea: existem duas naturezas, dois sexos opostos e dois gêneros diferentes, atados e divididos por um só nó. Partindo dessas determinações, o Homem, ao investigar mais cuidadosamente cada uma das naturezas plenamente separadas pelo pressuposto dual, encontrou mais diferenças de grau em ambas as partes, e, consequentemente, mais indeciso ficou sobre o ponto de cisão. É que, para fazer uma análise mais precisa destes mistos, o Homem precisou conferir um expoente ao homem capaz de deslocar o seu valor (0,1n), de modo a torná-lo uma parte mínima menor, e, portanto, uma unidade de medida ainda mais precisa. Basta que elevemos em uma unidade o grau do homem (0,12 = 0,01), para que vejamos aparecer um plano muito mais acurado diante de nossos olhos, com os mesmos quadrantes coloridos, só que agora com gradações que permitem ser mais ou menos Mulher ou mais ou menos Homem, com um peculiar gradiente andrógeno formado no meio dos dois. É interessante pensar que, foi a partir desse aprofundamento da divisão do plano, que pudemos notar como as diferenças de natureza acabam por convergir em um espaço vazio, amorfo e comum, irradiado da linha T, que conjuga uma primeira forma de terceire incluíde dentro do sistema ao revelar o espaço liso e a-fundado no qual as medidas estão assentadas (recordemos do primeiro plano de captura).
Mas, como bem sabemos, a inclusão deste espaço indefinido não nos oferece uma verdadeira libertação das lógicas binárias, muito pelo contrário. Se o Homem, na etapa anterior, foi capaz de se apropriar a terra e proclamar-se senhor dela, desta vez, ao tomar ciência de sua natureza, retornou ainda mais cínico, no corpo de um mentiroso compulsivo, de um ateu que crê em Deus. Não é à toa que seu nome foi muito bem cunhado por Nietzsche: o último homem é a porção mínima que falta para que superemos o Homem, para que entendamos que não só morreu Deus, mas também o Homem, suicidado depois de matar a sua própria divindade. Afinal, de que adianta o Homem e Deus morrerem se já foram internalizados? se seus apodrecidos Rostos ainda são vistos por toda parte? se seus planos já se bem sucederam, não pela tabela de valores que montaram, mas, sim, porque souberam conservar e deslocar a sua parte mínima? O último homem é fruto deste enésimo esquartejamento do homem pelo Homem, que retorna a menor porção como medida universal e suscetível a quantas marteladas ainda queira-se dar. E, se, por virtude da crença na descrença, o cadáver do Homem foi ressuscitado, tanto faz saber se ele está vivo ou morto, pois “os frutos da notícia não são as consequências da morte de Deus, mas esta outra notícia, a de que a morte de Deus não tem consequência nenhuma. [...] Matou-se tão somente um já morto desde sempre.” (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p.146)
Então, podemos perceber que, na medida em que o homem é deslocado e o grau de precisão do sistema é aumentado, a Média, mais do que apenas indicar a porção dominante da seção recortada, confere um valor cada vez mais preciso para um ponto qualquer no plano, mesmo que sempre por aproximação (M, no gráfico acima, tem um valor próximo a 56% de masculinidade). E se, no segundo plano, dissemos que M era somente uma conveniência na obtenção da unidade no par binário, neste terceiro plano, M ganha um estatuto ainda mais privilegiado, ao determinar um campo limitado de valores que destoam o mínimo possível. Logo, M torna-se um vetor cada vez mais rígido e correlato do próprio sistema de precisão, constituído por um número decrescente de valores possíveis ao eixo de rotação do cone, que, por sua vez, é submetido a um conjunto reduzido de percepções e lembranças cristalizadas no corpo e no espírito, o que compromete o dinamismo do ser em prol da manutenção de um só ponto central. Assim, aprendemos a afunilar a nossa autoafirmação em uma única identidade essencial e verdadeira, que nos é forçada a assumir diante a velha organização binária de gênero.
Já a linha T, neste terceiro plano, será como a posição central de um pêndulo, uma espécie de novo 0 pelo qual novos zeros podem aparece – e todos eles são não-triviais, oriundos de um corpo sem gêneros que transita e pendula entre os grandes conjuntos cis-binários e a produção de micro transgeneridades. Todavia, ainda é curioso e risório pensar como a captura da não-binaridade é melhor correspondida pelos valores próximos a 50% no plano C, perto da porção amorfa que, em geral, escapa às lógicas de ambos os lados; mas isso acontece justamente porque, para Homem, ou se é mais ou se é menos, simples assim, não pode acontecer de ser menos Mulher e menos Homem a uma só vez, e se o somos, é porque somos uma exceção à regra. E mesmo que, dentro deste contexto, o prefixo não- apareça quase sempre em sentido negativo, na verdade, quem vive em constante declino é o Homem: é ele que decai pela fórmula do último homem, que se desloca ao enésimo expoente para ser uma potência menor ainda, nunca verdadeiramente nula, mas somente a menor possível, até que o sistema seja novamente declinado e o Homem recodificado pela enésima+1 parte da cifra que o eterniza. Muito diferente é a não-binaridade, que implica uma espécie de consciência inconciliável com a do Homem, na qual vemos o declínio não como uma meta, mas como uma ponte, e, ao invés de somar mais 1, declinamos o próprio Homem e reduzimos seu exponente a 0, para que sejamos arremessades ao final da ponte, de onde poderemos dar os primeiros passos para além do Homem (0,10 = 1). Eis o grande segredo do Homem: só se passará por cima dele aquelus que o verdadeiramente declinarem. Nietzsche sumarizou estas ideias muito bem em: “os homens deram a si mesmos todo o seu bem e mal. Em verdade, eles não o tomaram e não o acharam; não lhes sobreveio como uma voz do céu. Valores foi o homem que primeiramente pôs nas coisas para se conservar – foi o primeiro a criar sentido para as coisas, um sentido humano! Por isso ele se chama ‘homem’, isto é, o estimador. Estimar é criar: escutai isso, ó criadores! O próprio estimar é, de todas as coisas estimadas, o tesouro e a joia. Apenas através do estimar existe valor: e sem estimar seria oca a noz da existência. Escutai isso, ó criadores! Mudança nos valores – isso é mudança nos criadores! Quem tem de ser criado sempre destrói. [...] Em verdade, o esperto Eu, o sem amor, que procura o que lhe é útil no que é útil a muitos: esse não é a origem do rebanho, mas seu declínio.” (2011, p.56-57)
Afinal, em questões de gênero, é difícil pensar em um declínio mais positivo do que o da não-binaridade, e, ao mesmo tempo, em nenhum outro mais negativo que o do Homem – é por isso que temos incialmente não-homens de um lado e um Homem do outro, mesmo que, na realidade, não-homens sejam atraídes à linha de Transição no centro do plano C. Essa força de atração, por sua vez, está diretamente ligada ao fato de que a linha T é traçada sobre o terceiro olho do Homem, sobre o buraco negro que faz todos os outros vetores de criação agirem, gravitarem e se distribuírem em torno do mesmo ponto central. É que, assim, o Homem pôde tomar controle absoluto da indefinição de gênero, não só a desviando à binaridade molar, mas também fazendo com que o escoamento absoluto de toda produção (o mercado global) possa ser cifrado por um único referente indefinido e infinitamente fracionário (o dinheiro). A captura, então, não se trata apenas de uma simples representação do inconsciente, mas também de uma perversa pinça dupla, capaz de reduzir a multiplicidade dos valores menores ao e individuais ao projetá-los no Cistema regulador do Homem-Estado, estriado pelos valores maiores, coletivos e binários, que ditam a boa convivência dos dois sexos. (a regulação econômica) Assim foi criado o niilismo reverso que o Homem inventou para si, no qual a vontade de potência tornou-se a vontade de declínio, engendrada por um conjunto cada vez menor de possibilidades pré-formadas, aquelas da tábua estilhaçada numa matriz retroativa, que esvazia o futuro ao fazer da criação de novos valores um processo de recombinação da base dual. Aqui entendemos que, mesmo mediante valores “personalizados”, a nostalgia do Homem continua a ser repetida e eternizada por uma mnemotecnia de rigidez maleável, que nos concede órgãos modulares para que montemos nosso corpo como uma colagem do Homem e da Mulher.
Terceiro plano de captura do Homem, o do último homem.
IV. O meta-Homem( \(\sum_1 ^ \infty 0,1^n\) = 0,1 + 0,01 + 0,001 + ⋯ = 0,111…): no entanto, ainda faltava ao Homem uma operação que o fizesse tender ao infinito, uma que lhe tornasse capaz dividir o plano tantas vezes até as linhas sumirem, fundindo as divisões em uma única superfície lisa e mapeada, numa única distribuição de quantias infinitesimais para todo e qualquer ponto do plano. Mas isso só ocorreu depois que o Homem descobriu seu dom capitalístico, pois foi no axioma do capital que ele encontrou seu novo metamodelo de conjunção geral dos fluxos desterriterriotiralizados, pelo qual toda e qualquer produção pode ser escoada a um único mercado global, que ultrapassa todas as fronteiras. É que, agora, depois de deslocar suficientemente o último homem, ele começou a dividir o plano C em dízimas, tantas e infinitas vezes, que a faixa T chega a desaparecer de uma vez por todas: agora, ela não mais é um artifício estranho alocado no sistema, mas uma zona incorporada ao Cistema, como ume terceire incluíde cujo desvio foi registrado e institucionalizado por siglas, bandeiras e pronomes específicos e customizados – que, ainda assim, tem seus índices de transgressão muito bem demarcados, sempre acompanhados por um registro de onde saiu e para onde está indo no sistema binário, de um histórico que diz se é amab e transfeminina ou afab e transmaculino.1 E não que estes nomes não sejam importantes, eles também são nosso modo de situar e resguardar a nossa perspectiva histórica, mas somente peço-lhe, leitore, que não deixemos de resguardar, igualmente, nossa identidade das raízes perversas do Homem, que ainda nos vê como um homem de saia ou uma mulher de calças. Acontece que os mesmos 10 primeiros homens se tornaram um bando de incontáveis, a tal ponto que há um para cada ume de nós. Porém, o último deles (0,999...), permanece fazendo a guarda do fim da ponte, clamando que, para ultrapassar o Homem (1), nós teremos de passar por cima dele primeiro, caminhando sobre os restos mortais do último homem. (0,1n) Mesmo assim, são tantos termos interpolados em nossos caminhos até ele, que acabamos nos distraindo de nossa meta principal, pois parece que tudo que é possível de ser feito já foi feito antes, e resta-nos escolher qual possibilidade mais nos conforta, sem que pensemos para além das apresentadas. É que, para essa quarta e última metamorfose, a qual podemos chamar de meta-Homem, o virtual e o possível são cinicamente tomados como sinônimos, e foi esta a consequência de ascender tanto o plano C. A captura, agora, sela tudo abaixo de si no cone da memória, e transforma o virtual no possível do Homem, sendo continuada analiticamente até os limites do passado absoluto. O campo de potencialidades puras, então, é substituído por um conjunto predeterminado de possibilidades, inscritas em uma matriz de vetores na qual os fragmentos perdidos do Homem são recombinados. De qualquer forma, devemos lembrar que ele só faz isso para que sejamos todes nós reinserides em seu velho Cistema compulsório, só que por “livre e espontânea vontade”, nos reduzindo a um mero nicho de mercado pelo qual uma pequena quantia de azul e/ou rosa pode ser extraída e designada a nós em troca do que ele chama de “inclusão”. É que, ascendendo mais alguns níveis do cone da memória, o meta-Homem descobriu que M de fato não é uma simples média, mas, sim, uma peça central para o dinamismo do sistema capturado, pois, mais do que centro da seção A’B’, M corresponde também ao eixo de rotação de AB, ou seja, ao eixo que desloca nossa memória e percepção de Xt-1 em direção a Xt sem jamais parar de tender a Xt+1 – um processo pelo qual se forma um ciclo de esquecimento do passado, apreensão do presente e formação do futuro. Logo, o trabalho do meta-Homem está voltado à constante predição de Xt+1, a partir da circunstância determinada em Xt e com base no histórico de Xt-n, tudo dentro de sua métrica e normal, por meio de uma função de erro retroativa e decrescente, que reduz a ocorrência de comportamentos estranhos ao sistema ao impor um funcionamento isomórfico e automatizado. E não é uma coincidência que esse automatismo seja similar ao processo de aprendizagem descrito por Bergson ou por modelos de machine learning. Afinal, foi sempre através de um aprendizado previamente programado por outrem, apreendido através da repetição e com o objetivo de automatizar o acerto pela redução dos erros, que se pôde programar não só as máquinas, mas também os homens (e não-homens).
Quarto plano de captura do Homem, o do meta-Homem.
Captura da seção A’B’ do cone pelo quarto plano, na qual valor M é o mais preciso possível (neste caso, cerca de 55,52357998489154% masculino) e a captura do eixo do cone é estendida analiticamente às pontas AB do sistema.
Na mesma medida em que o Homem cerceia o movimento de rotação do cone, para fazer do aprendizado uma forma automatizada de memória, ele também prioriza e infla o movimento de translação, exatamente em razão do seu potencial de cortar toda e qualquer seção da memória, condensando-a em um único metamodelo de extração dado pela fixação do cone em um campo de possibilidades dinamicamente preestabelecidas. Se trata propriamente de um sofisticado sistema de alienação, através do qual nos desapossam da nossa própria produção de gênero a fim de que não nos entendamos mais como produtores de nossa identidade, e nem ao menos reconheçamos nosso desejo no que afirmamos ser. O espírito do Homem morto, portanto, ascende até as mais longínquas sendas das lembranças para fazer com que Ninguém mais possa retornar de lá sem trazer consigo a imagem do Homem ressuscitado – uma imagem pela qual toda psiquê será singularmente triangulada, uma imagem feita somente para nós, por meio de um conjunto de predições personalizadas, produzidas por uma máquina que digere previamente os metadados roubados para que nem ao menos tenhamos o trabalho de pensar se somos ou não somos Homem. Logo, tudo desembocará de volta neste vasto universo de referências, cujos limites são continuamente alargados e preenchidos pela mais-valia – um esquema sustentado pela constantemente adição de novos axiomas de gênero, privados e feitos sob medida, figurados por este “reino das imagens [que] é a nova maneira do capitalismo utilizar as esquizas e desviar os fluxos: imagens compósitas, imagens assentadas sobre imagens, de tal modo que, no fim da operação o pequeno eu de cada um, reportado ao seu pai-mãe, seja verdadeiramente o centro do mundo. Muito mais disfarçado que o reino subterrâneo dos fetiches da terra ou o que o reino celeste dos ídolos do déspota, eis aí o advento da máquina edipiana-narcísica: ‘Chega de glifos e hieróglifos... queremos a realidade objetiva, real... isto é, a ideia-Kodak... Para cada homem, cada mulher, o universo é tão somente o que cerca sua absoluta pequena imagem... Uma imagem! Um instantâneo Kodak num filme universal de instantâneos.’ Cada um como pequeno microcosmo triangulado, o eu narcísico confunde-se com o sujeito edipiano.” (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p.352)
Retornemos, agora, ao Matéria e Memória, no qual Bergson esboça o modelo de cone que viemos tratando até então, para que cheguemos a duas conclusões fundamentais de nossa investigação. Primeiramente, ao passo que o filósofo discerne a percepção-pura da lembrança-pura, notemos que o único movimento coerente entre as duas é o da atualização, pois somente assim poderíamos explicar como a lembrança é “portadora da diferença” ao atuar em constante reintrodução da “diferença no presente, no sentido de que ela constitui cada momento seguinte como novo.” (DELEUZE, 2012, p.139) Por essa razão, somos levades a distinguir um presente contraído na materialidade de um passado distendido em temporalidades, os quais ambos fazem parte de uma mesma atualização repetida em séries de diferenças virtuais devindo concretas. Para Bergson, enquanto não houver uma verdadeira distinção dessas duas naturezas, da matéria e da memória, e não apenas de graus compreendidos entre os dois extremos, não seremos capazes de entender como o cérebro humano é capaz de guardar e agir conforme imagens. Sendo a materialidade somente a extensão do imediato, que não cessa de recomeçar, nela, não poderíamos encontrar lembrança-pura nenhuma, pois essa porção absoluta da memória “não diz respeito a nenhuma parte do meu corpo”. E isso acontece porque a memória “engendrará sensações ao se materializar, mas nesse momento preciso se deixará de ser lembrança para passar ao estado de coisa presente, atualmente vivida; e só lhe restituirei seu caráter de lembrança reportando-me à operação pela qual a evoquei, virtual, do fundo de meu passado. É justamente porque a terei tornado ativa que ela irá se tornar atual, isto é, sensação capaz de provocar movimentos.” (BERGSON, 2011, p.163)
Essa perspectiva se torna relevante às questões de gênero ao passo que reconhecemos, nelas, como o corpo e seus autorreconhecimentos são usualmente associados. Podemos ver, então, que se trata do mesmo erro combatido por Bergson, cuja confusão deriva da mistura inconsequente de retalhos materiais de órgãos com expressões temporárias de gênero. É que o tolo Homem, tentando nos entender, vai do pênis (Homem genital) ao testículo (Homem endócrino), ao rosto (Homem linguístico), e, finalmente, ao próprio cérebro (Homem neuropsicológico), sem nada ao certo entender da nossa transgeneridade. É que uma melhor explicação para as transições de gênero pode ser encontrada na duração de Bergson do que nas considerações psicomaterialistas, já que o conceito de duração nos explicita o porquê de ser tão difícil definir um início e fim exato à transição, sem antes fazer com que todo passado fervilhe e seja evocado como uma única tendência em constante divisão, da qual surgem as identidades plurais que encarnamos pela vida. A questão de gênero, afinal, só pode ser bem compreendida através do virtual, pois, neste domínio, não só é possível que expurguemos a confusão genital da mesma, como também nos tornarmos livres para sermos atualizades pelo atual, criando e encarnando identidades potenciais, nos movimentando estratégica e criticamente pelas armadilhas do Homem que foram estendidas pela terra. A partir do virtual, compreenderemos a transição como uma tendência singular do passado, como um todo, devindo à tona no presente imediato, pelo qual uma parte inteira nunca nos é dada como referência absoluta, mas, sim, continuamente dividida em n pedaços, que são dinamicamente agregados, subtraídos e modulados em um complexo arranjo heterogêneo, em constante mutação de sua singularidade, um produto explícito das tendências transversais impulsionadas pelo desejo de transitar (e não só de transicionar).
Passemos, agora, às nossas duas conclusões cruciais: por um lado, veremos que a transição de gênero sempre esteve decorrendo pelo inconsciente – o passado em si já era trans: havia e ainda há, nele, um intenso desejo de transição, mesmo que não o tivéssemos percebido naquela época, mas que, hoje, nos é bastante perceptível como sempre fomos levades por ele –, pois o desejo de transição é o único modo pelo qual podemos explicar a atualização constante de imagens da memória em uma identidade sempre diferente, que nasce do desejo como produtor afundamentado de novas imagens de gênero, organizadas de mil formas diferentes pelo Homem enfurecido com a burocracia que é registrar tantas novos nomes e gêneros distintos. Por outro lado, notaremos que, assim como Bergson desligou as lembranças e durações da aparelhagem física, devemos desligar também o gênero de qualquer que seja sua encarnação material, pois jamais se encontrará uma parte privilegiada do corpo que sumarize e reproduza, por si só nossa, expressão de gênero – afinal, não há órgão algum que destile o que somos, quer se busque na genitália, nos hormônios, na linguagem ou no cérebro. Digamos juntes em voz alta, então, as duas mais importantes e belas conclusões deste ensaio: sim, sempre fui trans e, não, meu gênero não diz respeito a parte nenhuma do meu corpo!
Esquema geral do movimento pendular de formação de gênero, com inspiração direta no gráfico esboçado na página 372 do Anti-Édipo de Deleuze e Guattari (2011).
Podemos, então, proceder a um breve esboço de outras possibilidade, ainda no plano C, mais apropriado para o domínio Homem. Anteriormente dissemos que o ponto zero é aquele pelo qual referência nenhuma pode ser obtida, senão através da multiplicidade de valores, e que o plano de captura do Homem concentra toda a força gravitacional exatamente no seu centro, pelo qual distribui a falta pelas oposições subentendidas na designação. Agora, a partir da não-binaridade, percebemos que o gênero é tão mais profundamente problematizado, quanto mais próximes estivermos deste centro absoluto de neutralização. Ao alinharmo-nos com o terceiro olho, nossos termos tendem a uma indeterminação de natureza que transpõem os limites da designação, fazendo com que saltemos à mais pura diferença, e saiamos do campo do possível para adentrar o campo do virtual. Aqui, devemos perceber que não foi o Homem que nos incluiu, mas que a inclusão foi a sua reposta à emergência de nossos híbridos, inapreensíveis pela cisgeneridade. É que, hoje, o Homem nos vende pequenas porções do território para o qual o antigo terceiro excluído era exilado, pois nem mesmo o Homem é dissimulado ao ponto de dizer que não existimos, ainda que nos empurre a uma não-existência como terceires incluídes, em troca de seu cínico reconhecimento. O problema é que, se algo ou alguém procede pelo prefixo não-, muito raramente isso acontece por pura contradição, pois esta forma fantasmagórica não é produto da produção afirmativa de identidades, e, sim, uma forma negativa condensada na própria esposa do Homem, cisgênera e perfeitamente simétrica a ele, dona de um outro conjunto molar formado pelo contrário do Homem, “naturalmente” mais fraco e subjugado. Ou seja, quanto mais corremos aos extremos no plano de Captura do Homem, mais perfeitamente estaremos conforme a cisgeneridade referencial, mesmo indo até o 0 ou 1, ao falso índice forjado para o lado esquerdo ou ao índice transcendental posto no lado direito. Porém, é óbvio que aquelu que caminha ao extremo oposto do Homem, será punide e atraíde à força pelas tendências da distribuição normal. É aqui que o devir-mulher nos é bastante importante: quase que como uma auréola ao redor da porção central e vazia do plano, circulando o verdadeiro ponto zero e não-binário de abolição do gênero, é através dela que passaremos para saltar às infinitas formas de ser nem um nem outro, mesmo que, historicamente, tomemos consciência da problemática de gênero por meio de violências e negações concentradas na figura molar da Mulher.
Enfim, se procedermos, então, analisando o plano C não mais pelas porções molares azul e rosa, mas por três tendências circulares – a cisgeneridade molar, a transgeneridade molecular e o corpo sem gêneros –, veremos surgir um gradiente radial na porção central do plano, que divide três zonas, ou órbitas gravitacionais, ao redor do terceiro olho do Homem. Se antes dissemos que a principal invenção do Homem foi apoiar-se neste centro absoluto, foi para que percebamos, agora, como ele fez isso com o intuito de legitimar somente as extremidades, ocupando os extremos com figuras cisgêneras bem determinadas por ele, que nada nos dizem sobre o verdadeiro funcionamento do sistema, controlando-nos sem que percebamos que ele escondeu seu segredo no inverso dos extremos, em uma existência que nos prometia ser impossível, exatamente no centro transcendental e absoluto no qual ele reside junto de outros universais indeterminados, como Deus, o Capital, a Subjetividade e o Significante. Todavia, este fundo não-binário, esta suposta impossibilidade, esta não-existência incluída, não deixa de ser descoberta das mais variadas formas por pessoas trans, em um trajeto singular composto por n identidades potenciais.
Quinto plano de captura, o do Terceiro olho do Homem, ou mapa de gênero (azul = cisgeneridade; rosa = transgeneridade; branco = não-binaridade).
Campo gravitacional de gênero.
Logo, seremos levades a considerar a terceira dimensão deste esquema, verdadeiramente mais complexa, que escapa ao entendimento do Homem. Mas, como aqui não trataremos mais de uma imagem e, sim, dos movimentos que percorrem livremente entre a percepção e a memória – iremos precisar de um eixo z essencialmente imaginário. Por exemplo, diferentemente do plano de captura do Homem, as superfícies riemannianas são essencialmente multiplicidades contínuas, cujo referencial é como o do número numerante, ou seja, são superfícies que encontram “um princípio métrico em outra coisa, mesmo que tão somente nos fenômenos que nelas se desenrolavam ou nas forças que nelas atuavam.” (DELEUZE, 2012, p.33) No modelo de cone, então, caso queiramos entender suas operações segundo elas mesmas, precisaremos considerar que a lembrança é contraída correndo turbilhão abaixo até chegar à percepção e, inversamente, a percepção é dilatada e posta a girar sem parar turbilhão acima, jogando imagens para todos os lados, centrifugando o presente em direção às lembranças: tudo se passa entre turbilhões de esquecimento e de reminiscência. Imaginemos, então, um único trajeto que percorre de AB até S, perpendicularmente ao plano C, girando e passando por pontos de coordenadas x e y diversas vezes coincidentes, mas com valores continuamente diferentes para z, correndo através da profundidade imaginária que foge ao real. Veremos, nisto, surgirem literais multiplicidades numéricas, pelas quais um trajeto fixo e bidimensional só poderá ser obtido por erro de análise. Mais especificamente, vejamos que, ao sobrepormos o cone da memória de Bergson com a função zeta de Riemann, expressa pelo somatório infinito de frações com denominadores inteiros e elevados a um dado expoente ( ζ(s)= \(\sum_1 ^ \infty 1/n^s\) ), surgirão zeros não-triviais exatamente na altura da faixa T do plano C, na linha crítica pela qual o matemático pôde desvelar a distribuição de números primos através da continuação analítica deste domínio misterioso compreendido entre 0 e 1. O que mais nos importa aqui é que foi em T que Riemann descobriu os zeros não-triviais da função, que só aparecem quando ela assume, na sua variável complexa (σ + it), a parte real igual 0,5 (s = ½ + it). Ou seja, é na linha crítica, a mesma do Terceiro excluído, que é possível assumir um verdadeiro significado de multiplicidade em uma identidade complexa e singular tal qual a dos números primos.
Representação da função zeta de Riemann sobrepondo o cone SAB de Bergson, junto do plano C.
É claro que ainda há infinitas outras maneiras de se fazer gênero, e muitas outras pelas quais a memória pode funcionar, mas concluamos dizendo que será somente através da transgeneridade que poderemos estudar a formação de qualquer que seja o gênero, pois, ao lado da cisgeneridade, sumarizado pela figura do Homem, somente continuaremos a cair em estruturas que jamais compreenderam ou compreenderão como uma pessoa pode ser nem Homem nem Mulher, pois, para ele, o reconhecimento só é possível através de uma de suas duas formas criadas. Voltando ao sonho que incitou esta pesquisa, lembro-me de vestir um vestido verde que adquiri há pouco tempo, mas lembro-me também de meu rosto parcialmente barbado pelas costeletas que conservo desde essa época; não só isso, lembro que todes me tratavam com pronomes femininos, mas não existia a sensação de que era percebide por mim ou por outres como Mulher, pois nunca foi exatamente o que eu quis; sentia, na verdade, que me olhavam como pessoa não-binária, sem que isso fosse um problema ou algo forçoso demais – às vezes, até ouvia legítimos tratamentos neutros que acalentavam minha alma. Nada disso é muito diferente do que tento viver hoje, a não ser pela atualidade que me rodeia; todavia, reconheço que, desde lá, já me dividi tantas vezes quanto precisei, pois, muitas das vezes, tive de passar por zeros não-triviais pelos quais me apresentei e pude solucionar os problemas de meu gênero. E, mesmo assim, poderia voltar a insistir no erro de dividir duas naturezas simetricamente distintas e cair novamente dentro da caverna do Homem, mas prefiro contemplar o turbilhão revolucionário que o passado e o presente formam ao se concatenarem um no outro através deste devir que é a transição.
1. Amab e afab são termos anglófonos correspondentes, respectivamente, às siglas “assigned as male at birth” e “assigned as female at birth”. (em tradução direta, “designade homem ao nascer” e “designade mulher ao nascer”.) Escolho esses termos tanto em razão do seu uso difundido, quanto por implicarem uma espécie de raiz, que funciona como um ponto de partida, um remetente da transição, assim como transfeminina e transmasculino denotam um destinatário ou ponto de chegada da transição. Todos esses quatro termos, ao meu ver, têm fundamento na ideia de que a transição consiste em um antes e depois binário – uma ideia que proponho problematizarmos nesse ensaio.
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